Robótica Dinâmica · Aula 17 — Motor DC e Caixa de Redução
Atuadores — motor de corrente contínua, torque e relação de redução
O que vamos conseguir fazer
Chamar o componente pelo nome correto e explicar por que se diz DC — direct current, corrente contínua, a mesma da pilha.
Identificar as cinco peças de dentro de um motor de corrente contínua (ímãs, rotor com bobinas, escovas, comutador e eixo) e dizer a função de cada uma.
Medir o torque de partida do motor 130 pendurando clipes a 1 cm do eixo e comparar o valor medido com o da ficha técnica do fabricante.
Abrir um motorredutor, identificar pinhão, estágios e eixo de saída, e contar as voltas até chegar sozinho na relação 1:48.
Fazer a conta da redução nos dois sentidos e concluir, pelo número, que a caixa não tem um motor mais forte — tem o mesmo motor com engrenagens na frente.
Peças e materiais
Motor DC c/ Caixa de Redução
Bateria / Fonte de Alimentação
Suporte de Pilha (2×AA / 4×AA)
Multímetro digital
Jumpers (M/M e M/F)
Introdução
Esta é a aula que abre a parte de motores da coleção — e ela é diferente de todas as anteriores: HOJE NÃO TEM MONTAGEM, TEM ENTENDIMENTO.
Comece com os dois na mão, um em cada. Estes dois giram, os dois usam a mesma eletricidade, e fazem coisas completamente diferentes: um é rápido e não tem força, o outro é lento e arranca peso. Diga a frase que justifica a aula inteira: se o aluno escolher errado, o carrinho dele não sai do lugar — e ele vai achar que errou o código.
O NOME CERTO — a gente fala motor DC, e DC vem do inglês direct current. Em português: motor de corrente contínua, ou motor CC. Corrente contínua é a que corre sempre no mesmo sentido — a da pilha, a da bateria, a do carregador do celular. Diferente da tomada de casa, que é alternada e troca de sentido sessenta vezes por segundo. Ou seja: o nome não descreve o que o motor FAZ, descreve de que energia ele se ALIMENTA. Por isso ele funciona com pilha. Vale dizer à turma: todas as práticas de eletrônica da coleção rodaram em corrente contínua — a gente só não tinha dado nome.
Introdução
COMO ELE FUNCIONA — transforma energia elétrica em rotação, em três etapas. A corrente entra pelas escovas e chega às bobinas do rotor; essa corrente cria um campo magnético que interage com os ímãs fixos da carcaça; dessa briga entre campo e ímã nasce a rotação, que aparece no eixo. E o detalhe que a turma adora: inverta os dois fios e ele gira pro outro lado.
AS CINCO PEÇAS DE DENTRO — os ÍMÃS, colados na carcaça, criam o campo fixo. O ROTOR COM AS BOBINAS é a parte que gira. As ESCOVAS levam energia até essa parte que gira — existem porque não dá para soldar fio numa peça em movimento. O COMUTADOR é o anel que as escovas tocam, e faz o serviço mais esperto: alterna o sentido da corrente nas bobinas. Sem ele o rotor daria meia volta e travaria. E o EIXO entrega o movimento pro projeto.
Escova e comutador são palavras novas: repita cada uma duas vezes e associe ao gesto — escova toca, comutador alterna. Se alguém perguntar: existe motor sem escovas, o brushless, que roda em drone e cooler; nele é a eletrônica que faz o papel do comutador.
Montagem / Hardware
Não há circuito a montar nesta aula. O que existe é uma PRÁTICA GUIADA em seis estações — o Modo Bancada da aula conduz uma por uma e guarda o número que cada aluno mediu.
ESTAÇÃO 1 — QUEM É QUEM
O aluno gira o eixo dos dois motores com o dedo. Um roda livre e continua girando um pouquinho depois que ele solta; o outro resiste e para na hora, porque tem engrenagens presas nele. Registra qual é o motor de corrente contínua e qual é o motorredutor. (A tela oferece "servo motor" como terceira opção — é distrator, e traz de volta a aula passada.)
Montagem / Hardware
ESTAÇÃO 2 — INVERTER A POLARIDADE
Liga os jacarés no motor 130 e observa o sentido do giro. Desliga, TROCA OS DOIS FIOS, liga de novo: gira pro outro lado. Registra os dois sentidos. Atenção ao erro clássico: metade da turma observa de um lado do motor e metade do outro, e o mesmo giro parece invertido — combine com todos de olhar de frente pro eixo. Feche assim: você inverteu o sentido sem trocar o motor e sem mexer em código, só na polaridade. É exatamente isso que uma ponte H faz sozinha.
ESTAÇÃO 3 — A PROVA DO TORQUE, PARTE 1: O 130 PARA
Montagem / Hardware
Motor girando solto, nove mil rotações. O aluno segura o eixo com dois dedos. Para. Só isso. Agora a medida: barbante amarrado A 1 CM DO EIXO e clipes pendurados um a um até o motor parar de girar. Registra quantos clipes. Como cada clipe pesa ~1 g, o número de clipes JÁ É o torque em g·cm — e vai cair perto dos 20 g·cm da ficha do fabricante. Este é o momento em que uma linha de catálogo vira um número que o aluno produziu.
ESTAÇÃO 4 — ABRIR A CAIXA
⚠ Três travas de segurança antes de qualquer coisa, e a tela só libera com as três marcadas: (1) alimentar em 3 V, NUNCA 6 — gira mais devagar, dá pra ver e é seguro; (2) placa de acrílico por cima das engrenagens ANTES de energizar, senão elas saltam dos eixos; (3) cabelo preso e manga longe — o vão entre dentes prende dedo e cabelo.
Montagem / Hardware
Quatro parafusos e a tampa sai. O aluno identifica na peça real e marca no desenho da tela: pinhão, 1º, 2º e 3º estágio, eixo de saída. Depois energiza em 3 V com a caixa aberta: o pinhão vira um borrão, e no último estágio dá para contar os dentes passando com o olho. Mesma energia, mesmo motor — a caixa trocou velocidade por força, e ele está vendo a troca acontecer.
ESTAÇÃO 5 — CONTAR ATÉ 48
Com um motorredutor FECHADO: fita colorida no eixo de saída, gira o eixo do motor à mão, devagar, contando até a fita completar uma volta inteira. O contador é da tela — o aluno conta com a mão e bate com o dedo, sem precisar segurar o número na cabeça. Vai dar quarenta e tantas. Está escrito 1:48 na lateral da caixa esse tempo todo.
Montagem / Hardware
O melhor momento da aula está aqui: a tela mostra a distribuição da turma. Quase ninguém acerta exatamente 48 e a sala inteira se amontoa em cima do 48. É a definição de especificação técnica acontecendo na frente deles — não é o número que você vai medir, é o número em torno do qual todas as medidas caem.
ESTAÇÃO 6 — A CORRENTE QUE QUEIMA A PLACA
Multímetro EM SÉRIE com o motorredutor, escala de corrente. Mede girando livre (~150 mA). Depois segura o eixo POR DOIS SEGUNDOS, lê o pico (passa de 1 A) e solta — não segure mais que isso, travado é onde a corrente é máxima e o motor esquenta. Registra os dois valores. A tela desenha as três barras lado a lado: o pino do Arduino (20 mA) vira um tracinho ao lado das outras duas.
Montagem / Hardware
FECHO — A FICHA TÉCNICA QUE EU MEDI
A última tela junta tudo: torque em clipes e em g·cm, a redução contada, as duas correntes, as peças achadas. Cada linha com o valor do aluno ao lado do valor do fabricante. Dá para imprimir — e é uma evidência de aprendizagem muito melhor que "o circuito funcionou".
Programação
Esta aula não tem programação. É de propósito: ela existe justamente para vir ANTES da programação.
O que ela prepara, e que a próxima aula não vai precisar ensinar de novo:
• o aluno já sabe o nome do componente e o que tem dentro dele;
Programação
• já sabe que inverter a polaridade inverte o sentido — então quando trocar os valores dos dois pinos no Tinkercad, ele vai entender POR QUE o motor gira ao contrário;
• já mediu com multímetro que o motor puxa muito mais corrente do que um pino aguenta — então a ponte H deixa de ser regra decorada e vira consequência de um número que ele viu.
SE SOBRAR TEMPO — vale abrir o Tinkercad e só mostrar onde fica o Motor DC na barra de componentes, sem montar nada. Cria a expectativa da próxima aula em trinta segundos.
Teste e ajustes
A CONTA DA REDUÇÃO, NOS DOIS SENTIDOS — faça no quadro, depois da Estação 5.
Está escrito na lateral da caixa: 1 para 48. E é bem literal.
• Da ENTRADA para a SAÍDA: o eixo do motor dá 48 voltas, o eixo de saída dá 1. Divide por 48.
Teste e ajustes
• Da SAÍDA para a ENTRADA: se a saída faz 200 rpm, o motor lá dentro faz 200 × 48 = 9.600 rpm. Multiplica por 48.
E agora o fecho: 9.600 calculadas… e a ficha do motor 130 solto diz 9.100. É praticamente o mesmo número. Essa é a PROVA de que a caixa amarela tem, lá dentro, o mesmo motor que está na outra mão. Não é um motor mais forte — é o mesmo motor com engrenagens na frente. A diferença cabe na variação de peça pra peça.
O QUE É TORQUE — introduza depois da Estação 3, com o número dele na mão.
Teste e ajustes
Torque não é força: é força VEZES distância do eixo. É a capacidade de fazer girar. Por isso a unidade tem duas partes, grama por centímetro. Vinte gramas a um centímetro é a mesma coisa que dez gramas a dois centímetros — quanto mais longe do eixo, menos peso ele segura. É essa lógica que explica por que roda grande é mais difícil de girar que roda pequena. (Para você: a unidade oficial é o newton-metro; 1 kgf·cm ≈ 0,098 N·m. Não entre nisso na aula.)
A TROCA — e por que não são exatamente 48 vezes.
A redução é de 48 vezes. Mas o torque não multiplicou por 48: multiplicou por cerca de 40 (20 g·cm viraram ~800 g·cm). Faltaram oito. Por quê? Porque a caixa não CRIA energia — ela redistribui, e perde uns 15% no atrito entre os dentes. A palavra certa é TROCA, não ganho: ela troca velocidade por força e cobra um pedágio no caminho.
Teste e ajustes
A analogia que sempre funciona é a marcha da bicicleta: na leve você pedala muito e anda pouco, mas sobe a ladeira. A perna é sempre a mesma — o que muda é a relação.
Honestidade técnica: os 20 g·cm e os 800 g·cm vêm de fichas de dois produtos diferentes. A ordem de grandeza é real, mas apresente como "cerca de 40 vezes".
QUAL MOTOR ESCOLHER — quatro critérios.
Teste e ajustes
Velocidade: o 130 ganha, e de longe. Torque no eixo: o com redução ganha, umas 40 vezes. Controle em rotação baixa: muito mais fácil no com redução — o 130 em velocidade baixa fica irregular e às vezes nem sai do lugar. Uso típico: o 130 vai bem em ventoinha e mecanismo leve; o com redução move roda, esteira e carga.
Traduzindo pro projeto da turma: SE TEM RODA, É COM REDUÇÃO. Quase sempre.
Encerramento
NUNCA LIGUE O MOTOR NO PINO DO ARDUINO — e hoje a turma tem número para provar.
Um pino do Arduino é feito para entregar 20 mA; 40 mA é o limite absoluto, o ponto de estrago. O motorredutor girando SOLTO puxa 150 mA — já é sete vezes mais do que o pino aguenta. Com o eixo travado, passa de 1.500 mA: setenta e cinco vezes.
Os quatro cuidados que voltam na próxima aula: (1) use um driver, uma PONTE H — ela entrega a força e o Arduino só manda a ordem; (2) fonte compatível com a tensão do modelo; (3) GND em comum entre Arduino e driver, senão o sinal não tem referência; (4) não trave o eixo — travado é onde a corrente é máxima.
Encerramento
Se um aluno curioso perguntar por que travado aquece: parado à força, o motor não gera contra-força eletromotriz, e sem ela a corrente sobe muito.
AS QUATRO PERGUNTAS DE FECHAMENTO
1. Por que se chama motor de corrente contínua?
Encerramento
2. Se o eixo de saída gira a 200 rpm e a redução é 1:48, quantas voltas o motor está dando lá dentro?
3. Por que o motorredutor tem mais força se é o mesmo motor?
4. Por que não se liga motor direto no pino do Arduino?
Encerramento
Se a turma responde essas quatro, ela está pronta pro que vem.
ERROS E CONFUSÕES MAIS COMUNS
• "O motorredutor é um motor mais forte." Não é — é o MESMO motor. O que mudou foi o caminho que a rotação faz até sair. Insista: é a ideia central da aula.
Encerramento
• Observar o giro de lados opostos do motor e discordar do sentido. Combine um lado só.
• Amarrar o barbante longe do eixo na Estação 3 e achar que o motor é mais fraco do que é. A régua não é enfeite.
• Segurar o eixo travado por muito tempo na Estação 6. Dois segundos, lê e solta.
Encerramento
GANCHO — o que vem agora é o motor no Tinkercad: a turma vai fazer esse mesmo motor girar com programação, descobrir que velocidade é um número de 0 a 255, e depois trazer tudo pra placa de verdade — e é lá que a ponte H entra em cena.
🥊
Bora construir!
dúvidas? a página completa da aula tem tudo: montagem, código e materiais.